Só na 21° rodada, foram quatro trocas de técnicos, o que certamente ajudará a manter a alta média da principal competição nacional. Zé Mário, presidente da Federação dos Treinadores, critica a má gestão dos clubes
Não é novidade que clubes e trabalhos a logo prazo não combinam no Brasil. Na 21° rodada do Campeonato Brasileiro, a rotatividade de técnicos serviu para evidenciar esse problema e aniquilar de vez a falta de união da categoria no país. Quatro treinadores foram desligados de seus respectivos clubes em menos de 24 horas. Dentre esses, gigantes do futebol e um só motivo: péssima campanha dos times. Esse número de trocas recentes ajudará a manter a média de 30 trocas durante a competição – já são 20 trocas entre técnicos e interinos.
A última quinta-feira começou com o pedido de dispensa do Cuca no São Paulo. Posteriormente, Rogério Ceni deixou o cargo do Cruzeiro. Já na manhã da sexta-feira, foi à vez de Zé Ricardo sair do Fortaleza. Logo depois, Oswaldo Oliveira não resistiu após polêmica com Ganso e dedo médio para os torcedores. Dois desses casos envolveram confusões entre jogadores e técnicos. Em entrevista exclusiva, Zé Mário, Presidente da Federação dos Treinadores de Futebol, teceu duras críticas à passividade dos clubes nessa relação, já que devem ser exemplos para jovens.
“Observem as atitudes dos jogadores e ainda sim os clubes não fazem nada. No meu tempo, no tempo de Paulo Amaral aconteceria isso? Não aconteceria! Os clubes sempre zelaram pelo bom comportamento, disciplina, pois eles são exemplos para os jovens. O jogador faz coisa errada e o clube apoia. O futebol está caindo assustadoramente e um dos problemas é a má gestão dos clubes”, disse Zé Mario, Presidente da Federação dos Treinadores de Futebol.
Essa dança das cadeiras não é novidade no Brasil. Já é a terceira vez que essa debandada ocorre em período tão curto. Os outros dois momentos aconteceram em 2010 e 2015. Em 2010, Silas (Grêmio), Estevam Soares (Ceará), Ricardo Silva (Vitória) e Toninho Cecílio (Prudente) deixaram o cargo entre 8 e 9 de agosto. Já em 2015 quatro comandantes deixaram seus clubes entre 16 e 17 de setembro: René Simões no Figueirense, Enderson Moreira no Fluminense, Julinho Camargo no Goiás e Eduardo Baptista no Sport.
Em média, o tempo de permanência de um técnico em um clube da elite do Brasileirão é 6,1 meses. Desde 2008, as equipes de primeira divisão do Brasil promoveram 303 alterações em seus treinadores durante a temporada. Em comparação ao Campeonato Italiano, Espanhol, Alemão, Inglês e Francês, foram 120, 87, 77, 65, 52 mudanças, respectivamente. Logo, não se assustem se na 22ª rodada (sábado, 28 de setembro, e domingo, 29) novos treinadores forem demitidos. De acordo com Zé Mário, essa rotatividade na troca de treinadores prejudica os jogadores, os clubes e o futebol brasileiro, uma vez que os novos contratados têm exigência e hábitos diferentes, tudo em meio à competição.
“Eu sempre tenho falado que a mudança dos treinadores só prejudica os jogadores, o clube e o futebol brasileiro. Por exemplo, o treinador que tinha uma mala pesada nas costas devido ao resultado, a preocupação em fazer uma mudança, ele deixa a mala no clube e vai para outro sem nada nas costas. O maior problema é para o clube, já que entra outro treinador e começa tudo de novo. São novos hábitos, exigências e pessoas diferentes para se gerir. É muito difícil para o clube se reestruturar dentro da competição. É notório, todos sabem disso. Porém, a má gestão dos clubes que não traçam os objetivos, onde pode chegar a cada ano faz essa debandada. Eles querem sempre ganhar, mas 20 não irão. É apenas um que será campeão. Como que um time que investe pouco ganhará o campeonato disputando com quem investe muito?”.
Com 66 trocas, o Fortaleza foi o clube da elite que mais trocou técnicos desde 2003. Em contrapartida, Corinthians e Cruzeiro, com 20 trocas, foram os “campeões” no quesito menos rotatividade. Tricampeão com o São Paulo, o trabalho do Muricy Ramalho é o mais longevo da história dos pontos corridos, com três anos e cinco meses. Atualmente, Renato Gaúcho é quem mais se aproxima de bater o recorde de Muricy – o treinador do Grêmio está no cargo há três anos, faltando então cinco meses para igualar ou ultrapassar o recorde. São exemplos como esse na equipe gaúcha que Zé Mário quer ver no Brasil.
“Temos vários exemplos de que quando os clubes dão continuidade ao trabalho com planejamento e pés no chão conseguem melhores resultados. Por exemplo, o Renato Gaúcho no Grêmio e Muricy Ramalho no São Paulo, entre outros que poderia citar”, finalizou.
Por Gabriel Lutterbach









